Eu sempre assustei algumas pessoas com minhas ideias sobre relacionamento. Muita vezes fui olhado como se tivesse antenas, fosse verde e voasse um UFO mille 1.0 simplesmente por dividir com algumas pessoas um pouco de minha experiência. Experiência. Rs. É, amigos, eu tive um longo relacionamento de 16 anos com uma pessoa maravilhosa – com um intervalo onde conheci e namorei outra pessoa também maravilhosa. Acho que, contrariando Chico Anísio, isso me dá uma certa experiência. Pois é, Chico uma vez afirmou que seu Zé, que passou 50 anos casados, não é entendido de casamento. É entendido do casamento DELE. Que, ainda segundo Chico, ele mesmo seria um expert em casamento já que haveria casado sete vezes. Pois é, faz sentido. Mas, ainda assim, insisto em, eventualmente, dividir um pouco da minha parca experiência.
Eu passei por grande parte dos estágios que levam nosso entendimento sobre o que realmente é um relacionamento, como toda pessoa. Hoje posso afirmar, categoricamente, que aquele ideal do amor sempre apaixonado, eterno e fiel é apenas a receita para uma grande decepção e frustração. Mas, acreditem, ainda assim é importante viver essa crença e descobrir por si mesmo(a) onde está a verdade. Logicamente eu estou generalizando e você pode vir a ser a exceção. Mas por via das dúvidas esteja sempre pronto para descobrir uma verdade ligeiramente – ser sarcástico com as coisas do coração doí – diferente.
Primeiro é necessário dizer que acredito em amor eterno, não em relacionamento ETERNO. Sei que existe mas não posso por a mão no fogo por ele. E não, seu avô e sua avó não servem de exemplo. Tempos diferentes. Sua vó pode até ter pensando em abandonar seu avó quando descobriu que ele a traía mas não teve coragem de enfrentar a vida e as pessoas. “Ele pode ter suas raparigas contanto que volte para mim”, isso foi comum. Ainda bem que passou. Ei, não me xingue, foi apenas um exemplo. Mas vamos adiante. Acreditar que sua relação será eterna é ser utópica demais. Quando vocês se apaixonaram, quando resolveram se relacionar, eram as pessoas certas para aquilo – ou pretendiam ser. Mas pessoas mudam. A vida dos integrantes de um casal muda. Ele, antes esquerdista, militante e natureba pode, pela pressão do dia-a-dia, se tornar de direita, acomodado e adepto a junk food. Ela, antes atenciosa, amorosa e presente pode se tornar mais distante e ausente, mergulhada em sua carreira. Se antes era o azul, hoje é o amarelo. É normal, evoluímos de acordo com as necessidades da vida. E, por mais que amemos aquela pessoa, podemos achar que não podemos mais nos relacionar com ela. Eu a amo mas não consigo mais conviver. Simples. Até que ponto você está pronto para sacrificar sua vida em prol de um relacionamento? Será que vale a pena continuar se não se está feliz? Porque continuar? Nesse momento você descobre que, apesar do amor, o relacionamento não dura. É, doí. Desculpa se te fiz perceber algo que você preferia ignorar.
Ah… o amor apaixonado. Certa vez perguntei a uma amiga se ela, depois de um ano e meio de namoro, seguia sentindo borboletas no estômago. O famoso frio na barriga, um claro sinal de paixonite. Sim, foi a resposta dela. Apesar de suspeitar que não seja verdade eu a parabenizei. Que ótimo. Espero que continue assim… ela seria, acreditem, exceção. Você ainda sente borboletas no estômago? A ausência dele ainda doí? Ainda sonha com ele quando está longe? Ainda é cega para os defeitos dele? Sim, porque isso é paixão. A paixão nos cega para os defeitos daquela pessoa a quem desejamos. O amor não. O amor nos faz enxergar e compreender os defeitos. Mais que isso, eles nós faz ter certeza que a pessoa amada é maior que eles. Nós dá força para mudar aqueles que achamos que podemos mudar e tranqüilidade para aceitar os que não podem ser mudados. Esse amor apaixonado é raro. Geralmente a paixão se vai com 4 meses de relacionamento… esse é o embrião do amor. A paixão, por nos cegar, pode nos fazer viver uma mentira. Mas, calma, guarde suas pedras. Não importa quanto tempo tenha seu relacionamento, ainda assim haverão momentos apaixonados. Tem que haver. Espero que haja.
Agora a parte que mais choca. Fidelidade. Eu não acredito nela. Você também não devia.
fidelidade (fi-de-li-da-de)
s. f.
exatidão em cumprir suas obrigações, em executar suas promessas: jurar fidelidade. Afeição e lealdade constante: fidelidade de um amigo. Obrigação recíproca dos esposos de não cometer adultério. Exatidão, semelhança: fidelidade de uma narração. Lealdade; probidade.
Observem que grafei obrigação. Eu não acredito em fidelidade porque não acredito em nada que sejamos OBRIGADOS. Nada que precisamos impor a outro e a nós mesmos pode funciona sempre. Sob essa ótica basta sua força de vontade diminuir e pronto, a fidelidade já era. Uma briga séria, uma maior carência, álcool. A fidelidade, como entendemos, é frágil. A afeição é natural a uma relação, e importante, claro, mas tão importante quanto ela é a LEALDADE. Essa sim nos faz fortes e fieis. Porque a lealdade não pode ser imposta pela força ou pela necessidade. A verdadeira lealdade é conquistada. É garimpada no dia a dia. É fruto de admiração, respeito e carinho. Quem é leal não traí não porque se impôs uma pretensa fidelidade mas porque não quer machucar uma pessoa a quem ama e admira, porque não quer por sob risco, ou julgo de um erro, algo tão precioso.
Mas a lealdade tem uma característica que a define: reciprocidade. Uma vez que se perceber que o outro lado não é leal ela simplesmente deixa de existir. E assim vem o medo, a desconfiança, a insegurança. E assim o relacionamento afunda. Lógico que algumas coisas atingem a lealdade. Lógico que ela pode fraquejar. Mas ela não se rompe de vez. Um casal pode trabalhar as angustias e medos juntos e sair dali ainda mais fortes. Ou se entregar as desconfianças e desistir de vez. Quem é leal é seguro. Muitas vezes me questionaram sobre deixar minha mulher ou namorada sair sozinha. Cara, ela é linda, você não tem medo? Medo? De quê? De chifre? Ela podia dizer que iria ao cabelereiro e ir pro motel. Podia dizer que iria pra faculdade e ir pro motel. Porque escolheria logo uma balada cheia de conhecidos? E, mais importante, porque trairia se somos leais um ao outro? Quem disser que não tem medo de ser traído está mentindo. Muita gente realmente acredita que chifre é como consórcio, que pode até demorar mas você será contemplado. O medo é natural. É medo de sofrer. Ser subjugado por ele não. Você precisa dar espaço a sua cara-metade. Precisa permitir que seja ela mesma e não a pessoa que você projeta. Esse é o maior presente que pode dar a quem se ama. O inseguro sufoca. Ele impede que a outra pessoa atinja seu potencial, se realize. O ciúmes é normal. É bem vindo em pequenas doses. Mas a insegurança é fatal. “Ah, mas porque ela quer fazer isso? Eu dou tudo a ela. O que ela quer, ela tem!”. Ela quer liberdade. Ele quer liberdade. Uma gaiola de ouro ainda é uma gaiola.
Enfim, é isso. Quando entendemos que a relação não é eterna valorizamos mais os pequenos momentos. Não deixe para amanhã o que deseja viver hoje a dois. O amanhã a dois pode não chegar. Para mim Disney nunca mais será a mesma por causa disso. Quando entendemos que a paixão se vai passamos a valorizar mais os momentos apaixonados, as surpresas, os atos de amor impulsivos. Provocar no outro o desejo de você, e não falo apenas o sexual, é fundamental. E quando deixamos de acreditar na fidelidade passamos a trabalhar todo dia pela conquista e manutenção da lealdade. Pensamos no outro como em nós mesmos. Nos tornamos mais fortes como pessoa e como casal.
Seja leal, apaixonante e intenso. E, quem sabe, seja feliz.