Muita gente aqui lê meus textos sobre mídia social – e alguns até gostam – e sempre entram em contato com uma visão mais voltada ao marketing. Redes sociais é muito, muito mais que isso. Quando defendo que estamos vendo uma revolução sem precedentes da comunicação muita gente me vê como um “bafo-de-bode” dos anos 2000. Assista esse vídeo, captado na TEDxSP, registrando uma palestra de Augusto de Franco. Se você tem interesses no assunto não deixe de ver. Vai abrir sua cabeça.
O brasileiro é um fanfarrão. Eu sempre alerto qualquer cliente sobre o fato de que a anarquia é a moeda de maior valor na web brasileira. Não é a toa que os blogs mais acessados são justamente os de humor. E tem mais, quanto mais idiota o humor… mais visitas. Quanto mais caustica a sacada mais viraliza. E se sacaneia alguém… já era.
É impressionante como o brasileiro se mobiliza para sacanear um terceiro. As mesmas pessoas que diziam que o #forasarney era uma grande besteira – afinal jamais tiraria o Sarney – se engajam ferozmente pelo CALA BOCA GALVÃO – como se fossem mesmo calar o infeliz. Um perfil como o @canaldobem, cujo objetivo é divulgar pedidos de ajuda no twitter, sua para conseguir um mero RT quando tenta salvar a vida de alguém que precisa de doação de sangue. Já o CALA BOCA GALVÃO ganha vídeos e cartazes dando ainda mais crédito ao HOAX como o único objetivo de… zoar. Zoar não só o Galvão mas, por tabela, a vênus platinada, a poderosa Rede Globo. É, amigo, a maior “ação de mídias sociais” do Brasil tem como objetivo… ZOAR.
Não é de hoje que Galvão Bueno é sacaneado na web. A comunidade “Eu odeio Galvão Bueno” tem mais de 90 mil seguidores no Orkut. A “Cala a boca Galvão”, criada em 2004, tem cerca de 30 mil – você não achava que a ideia era nova, não é mesmo? Mas porque só agora isso repercutiu assim?
O destaque que gera o destaque
A proximidade da Copa do Mundo fez com que ter de aguentar Galvão Bueno, uma metralhadora de clichês, assombrasse boa parte da população brasileira. O fanfarrões logo começaram a brincar com isso no Twitter e… pimba, Trend Topics. O termo entrou entre os mais citados no Brasil. Até então, ok, era natural. Mas a repetição do termo por alguns brasileiros que não estão identificados pelo sistema como estando no Brasil fez com que o termo surgisse no TT mundial. OPA.
Vejam bem, enquanto o Orkut só tem peso no Brasil – esqueçam a Índia, ok? – e já é 2004 demais, o Twitter é a estrelinha das mídias sociais e, acreditem ou não os leigos, fonte de pautas para jornalistas do mundo tudo. O mundo está de olho no Twitter. E o mundo de repente resolveu se perguntar o que diacho significava CALA BOCA GALVÃO. E cada pergunta era uma nova citação. E o brasileiro, esse fanfarrão, entrou em ação novamente.
Logo o cartaz acima foi criado e divulgado. A pegadinha fez com que alguns gringos engajados passassem a trabalhar pela salvação do pobre pássaro ameaçado de morte. E o CALA BOCA GALVÃO logo tornou-se o termo mais citado no Twitter em TODO O MUNDO. E o brasileiro, esse fanfarrão engajado, entrou em ação mais uma vez.
O vídeo abaixo, criado pelo Não Salvo, em conjunto com Nandopax e NerdsKamikaze, muito bem produzido, caiu na web, viralizando rapidamente. A piada interna brasileira só ganhava mais detalhes como a divulgação da música CALA BOCA GALVÃO gravada por Lady Gaga. Fake, lógico, mas que atiçou os fãs por todo mundo que passaram a desejar a música “exclusiva”.
A Globo, que até então parecia ignorar o meme, começou a perceber que a coisa talvez fosse mais complicada do que imaginava quando o El País e o NY Times o citou em matérias. Bombou ainda mais.
Chegou a surgir na web a notícia de que por meio de uma liminar a Rede Globo teria tentado tirar o termo dos TT mundiais. Logicamente, para uma empresa que chegou a divulgar uma circular impondo regras para o uso das redes sociais entre seus funcionários, perder o controle de algo assim estava se tornando um problema complicado de se lidar. O que fazer? Partir pra briga? Ser acusada de impor a censura? Tentar combater milhões? Não. O melhor negócio era na verdade a ÚNICA opção: rir.
Eu já escrevi algumas coisas sobre a parte mais complicada de fazer uma grande corporação a entrar com vontade nas redes sociais. Seria a 3a lei da mídia social: ABRA MÃO DO CONTROLE. Isso deve ter sido muito, muito difícil.
A EA faz escola
A EA, uma das maiores produtores de games do mundo, passou por um perrengue parecido – apesar de não tão amplo. O caso do Jesus Shot. Leiam aqui para saber mais, de outra forma teríamos um post ainda maior. Se você não conhece o caso do Jesus Shot a Rede Globo, ou alguém lá dentro, parece conhecer.
E, vendo que não tinha como diminuir a repercussão e sabendo que iria gastar fortunas para enfrentá-la a Globo “resolveu” o problema. Ela fez o que toda pessoa inteligente faz quando recebe um apelido: entrou na brincadeira. E não apenas entrou na brincadeira como, de forma magistral, capitalizou em seu favor todo o hype em cima do meme.
Faça amor, não faça guerra
Parece que os hippies estavam a frente de seu tempo. Eles já viviam sobre uma bandeira que PRECISA ser adotada por qualquer marca que resolva ser fazer presente nas mídias sociais. Não dá para ser truculento. O internauta é birrento, quanto mais resistência, mais pressão.
Ao levar na brincadeira – sem duplo sentido – a piadinha perde PARTE da graça. Lógico que não vai impedir muita gente de continuar fazendo barulho e muito menos tirar o CALA BOCA GALVÃO dos TTs. Mas agora a Globo faz parte da brincadeira, ela está participando e não coibindo. Ela agora “ganha” com o hype. Um eficiente controle de crise, realizado por uma empresa que já foi resistente ao meio mas que agora parece ter entendido que não há como fugir dele.
É pra rir?
Bem, tem quem ria. Eu choro. Fico cada vez mais impressionado como só as coisas fúteis repercutem dessa forma. Como muita coisa legal segue desconhecida enquanto um meme como esse vira hype internacional. Mas o que esperar de um internauta que comemora ter conseguido mudar a disposição do queijo dos sanduíches da Subway mas que ignora um pedido de doação de fraldas para uma creche? E, nós, “profissionais” de nova mídia – as aspas afastam os chatos – temos mais um case assustador para contar em volta das fogueiras nos simpósios e seminários da vida.
Lembram do filme Crazy People onde Dodley Moore encarnava um publicitário que resolvia só fazer anúncios falando a verdade e terminava sendo internado? Pois é, eu sou velho e lembro. O interessante é que sempre matutei o quão sincero podemos realmente ser em uma propaganda. Na verdade sempre matutei o que de tão sincero poderíamos dizer que nos ajudasse a vender alguma coisa. Aí vem a Kaiser e solta essa pérola:
No inicio dessa semana eu dei de cara com um vídeo bem interessante. Tratava-se uma reinterpretação cinematográfica – um trecho ao menos – do universo de Mortal Kombat. Nesse vídeo tínhamos algo mais realista, personagens como Baraka e Reptile, por exemplo, não são monstros, ao menos não no sentido figurado da palavra. Até então ninguém sabia a origem ou objetivo do vídeo. Seria uma prévia de algum filme? Seria uma tentativa de relançar a série nos games? Assistam.
Legal, né?
Trata-se de um curta produzido por Kevin Tancharoen, que fez o filme por conta própria – com muitos favores cobrados – gastando U$ 7.500,00. Segundo diretor o vídeo tem como objetivo tentar convencer a Warner de que ele seria o cabra certo para levar a franquia de volta aos cinemas. Segundo Kevin o seu Mortal Kombat seria focado na tensão entre Scorpion e Sub-Zero. Acho Digno.
Enquanto muita gente ficou de mimimi por ele ter tirado as características místicas da série eu achei massa assim. Chega de bolas de fogos e efeitos especiais que, geralmente toscos, deixam qualquer filme uma bela bosta.
Eu sinceramente não sei se a técnica do sujeito vai surtir efeito. Sandy Corolla fez o mesmo com Batman Dead End e ainda assim não decolou como diretor.
Eu ja escrevi várias vezes sobre o danado do “viral”. Já expliquei que raramente, diria quase nunca, a agência que o cria pode definir sua capacidade de viralização. E não pode mesmo. Quem define a capacidade de viralização de um vídeo é sua qualidade como conteúdo, o quanto ela é relevante para o veículo colaborativo responsável por sua divulgação, ou, de forma simples e direta, você.
Mas, digo e repito, a agência pode não garantir a viralização mas pode, com criatividade ou muito dinheiro -- de preferência o primeiro mas o segundo ajuda muito, criar algo cujo o resultado tenha viralização quase certa. Esse é o caso do novo viral da Adidas.
Assistam e vão entender porque foi aposta em cavalo vencedor.
Eu não consigo imaginar quanta grana os caras gastaram -- com direitos, CG e elenco (aft Punk, Noel Gallagher, Ian Brown, Jay Baruchel, Snoop Dogg e David Beckham, entre outros) - para produzir algo assim. Mas foram na certeza. Star Wars é pop. Ponto. O vídeo foi publicado dia 04 de junho e já tem APENAS 1,5 milhão de views. Observe que no youtube as estatísticas de origem do vídeo estão travadas -- logo não dá pra saber que técnica eles utilizaram para plantar o dito cujo -- mas podemos observar que, seja lá qual tenha sido, o alcance foi mundial.
Logo, amigos profissionais de mídias sociais, se o cliente bater na mesa e exigir a viralização você já sabe a receita… MANDE ELE SE COÇAR COM O DINHEIRO.
Eu já me acostumei com a pergunta: “Porque a empresa de vocês se chama Dani Mirella?”. Pois é, Dani Mirella com dois Ls. E, só não foi Myrella porque Ely teve um pouco de juizo. Eu costumo terminar minhas palestras dando logo o e-mail dele -- ely@dani.com.vc -- para que as pessoas possam perguntar a esse ser tão criativo de onde ele tirou esse danado desse nome.
Mas, convenhamos, amigos, a ideia por trás da mente fértil de Ely para o uso do nome da Dani é bem interessante. Ele foi criado para lidar com situações como essa exposta no vídeo abaixo, que catei no Sedentário.
Não há nada mais IMBECIL no mundo que gente que gosta de dar preço no trabalho alheio -- sempre puxando pra baixo, lógico. Quem trabalha com propaganda, design (acertei, viu, Entojo?) e mídia social tem que aguentar alguns clientes que tratam você como se estivessem fazendo um verdadeiro favor em lhe contratar. “Ah, mas será uma HONRA você trabalhar para nossa empresa!”, “Agora você está pagando para trabalhar mas o resultado abrirá portas” e “No próximo compensamos você”… pfff…
O plano de Ely para o nome da empresa foi simples e funcional.
- Temos aqui R$ 1.200,00 para usar em mídia social.
- Aham… certo, tudo isso…
- Mas vocês tem que lembrar que ainda tem a comissão para nossa agência!
- …
- Acertados?
- Colega, não é porque nossa empresa tem nome de puta que aceitamos qualquer merreca. Dani Mirella é brega mas tem honra.
Bem, ainda não tivemos a oportunidade de usar a piadinha -- estamos gastando a da vela ainda -- mas depois do vídeo dá vontade de usar. Ah, dá.
A propaganda de TV vem tornando-se cada vez mais refém de roteiros mais complexos e de interpretações afinadas. Pesquisas revelam que 90% dos espectadores mudariam de canal no momento o intervalo se tivessem acesso ao controle remoto. A solução tem sido investir em anúncios que são bom conteúdo fora do ámbito comercial… e nisso o humor realmente se destaca.
Fazer comerciais bons, divertidos e engraçados sempre foi um grande desafio para qualquer publicitário. Existem N variáveis que interferem diretamente nisso. A coragem e mente aberta do cliente, o poder de convencimento do atendimento, a qualidade do texto, do diretor, dos atores, enfim, são muitos os riscos e tênue a linha que separa o engraçado do ridículo. Mas, caros amigos, quando todas as variavéis convergem… temos comerciais como esse abaixo: