Conta-se que o Wall Mart, prestes a iniciar a construção de uma das suas maiores lojas, importou um executivo para ficar a frente da empreitada. Este executivo, que agora chamarei de “o gringo” ficou responsável por quase tudo que dizia respeito ao investimento. Selecionou o local, negociou o ponto, escolheu empreiteira, aprovou projeto, acompanhou construção e, voilà, entregou a obra pronta, finalizada, inaugurada. Tudo as mil maravilhas se não fosse o fato da nova loja ter um teto capaz de suportar 40 toneladas de neve. E da loja ser no Brasil.
Digno de ser incluso em qualquer anedotário a história acima é real e está prestes a se repetir em outra área: no marketing político.
O case OBAMA.
Obama, o presidente pop americano, tem cerca de 5 milhões de fãs espalhados nas mais diversas redes sociais. Obama, o presidente negro americano, teve seus vídeos assistidos por 15 milhões de pessoas. Obama, o presidente das minorias, conseguiu emplacar o melhor viral de 2009. Obama, o presidente nerd, arrecadou mais de meio bilhão de dólares em doações pela web.
Foi um case único de marketing politico digital. E quando digo único não afirmo isso por ter sido o primeiro com tal repercussão. Digo que foi único porque somou uma série de fatores tais quais como a latente expansão das mídias sociais e UM PRESIDENTE POP. Sem querer diminuir o mérito de todos os envolvidos na campanha on-line de Obama, longe de mim, afirmo sem medo que esse resultado não se repetiria no caso de termos outro candidato. Se você ignora isso ao analisar essa campanha você é burro.
O case OBAMIS.
Mas, como é praxe, tudo que dá certo deve ser copiado a exaustão. Se funcionou para Obama porque não funcionaria para Obamis, aqui no Brasil? Ah, jovem gafanhoto, são tantos os motivos…
1. A duração da campanha – enquanto no Brasil a campanha no Brasil dura cerca de 4 meses (sem o 2º turno) nos EUA ela dura cerca de 2 anos. Não preciso explicar a diferença que isso significa para os resultados, preciso?
2. Polarização – nos EUA a politica, de forma simplista, se resume a dois partidos: democratas x republicanos (os outros não tem representatividade). A ausência de outros partidos gera maior rivalidade entre os partidos e, assim, maior militância.
3. Aspecto jurídico – a legislação brasileira sobre internet engatinha. A legislação eleitoral brasileira sobre internet ainda chora desesperada em seu berço. Precisamos caminhar muito ainda.
4. Cultura – sério que vou ter que dizer que as culturas são completamente diferentes? Que o americano é mais radical em sua militância, é mais engajado e que não é OBRIGADO a votar e se resolve fazer isso ele realmente está INTERESSADO na eleição? A cultura do uso do cartão de crédito, da compra online e das reuniões de captação de verba para campanha são completamente distintas!
5. Economia – apesar da inclusão digital ir em vento e popa aqui no Brasil não é preciso ser gênio para saber que a quantidade de usuários de WEB nos EUA é BEM maior que a nossa. No Brasil cerca de 52% dos acessos a WEB ainda são feitos via Lan House e, aqui pra nós, o poder de conversão de tal pessoa é bem baixo. Ele é target e não veículo o que foge do padrão de dispersão de mensagens nas mídias sociais.
E isso apenas analisando de forma muito rasa.
Mas sem expectativas, o formato funciona?
O formato… hum… veja bem, se analisarmos a campanha do ponto de vista de profissionais de social média ela hoje não seria exatamente inovadora. Todas as ferramentas e canais utilizados hoje são comumente utilizados nas mais diversas campanhas pela web. Isso quer dizer que o formato funciona sim… em parte.
Um dos grandes méritos da campanha de Obama foi ousar. Usar ferramentas novas, buscar a viralização – com material MUITO BEM PRODUZIDOS, e até mesmo anunciar dentro de games. Eles tiveram aquele saco roxo que Collor tanto falava.
Acredito que irão surgir coisas novas aqui no Brasil, aqui e acolá, mas o feijão com farinha vai dominar. Isso é fato. Sites institucionais, o blog da militância jovem, virais meia-boca, perfil e comunidade no Orkut, Facebook, perfil no Twitter, canal no Youtube e no Flickr, algumas coisas usando Tumblr e Formspring, uma ou outra rede no Ning e publieditoriais nos mais diversos blogs. É isso que se vai fazer… e isso de fato nem importa afinal TODOS vão fazer. O mais importante é como vai se fazer… aí que está o pulo do gato.
Anotar uma receita e mudar um pouquinho os ingredientes é a certeza de um sabor diferente do original. A não ser, claro, que você entenda bem do que está fazendo e a mudança resulte em algo ainda mais saboroso.
E por baixo do pano…
E, podem apostar, o que vai fazer barulho e gerar buzz será a contrapropaganda, a contra-contrapropaganda, as redublagens, montagens, blogs apócrifos, ataques hackers e afins.
O que irá causar na web não serão os sites oficiais e sim os paralelos, não será o conteúdo de campanha e sim o de guerrilha. Essa é a máxima da mídia social, ninguém quer você falando bem de si mesmo, querem ouvir de um terceiro. Como fazer isso é que são outros quinhentos. Mas como fazer alguém não engajado replicar algo de bom é muito complicado é mais fácil fazer ele replicar algo de ruim… e como é.
É por essas e outras que aconselho ao candidato que antes de pensar em pagar milhões a seu marketeiro digital pensem em pagar uma bocado de grana a seus guerrilheiros digitais. E, amigo, tire o olho um pouquinho de Obama e pouse mais perto, ali em Gabeira, o que perdeu. A campanha dele está bem mais próxima de nossa realidade. E se você não vê isso você é burro. E talvez um burro sem mandato.









