A era do empreendedorismo desesperado
Antes de abordar a teoria do Empreendedorismo Desesperado eu preciso esclarecer um ponto de vista. Prontos? Vamos lá:
Não sou um cara de circular muito, nada tenho de arroz de festa, assim sendo não encontro com meus amigos com a freqüência que gostaria. Mas o fato é que, ainda assim, percebi algo preocupante: boa parte deles está estudando para concursos. Isso é preocupante porque, em minha modesta opinião, levanta algumas "verdades":
1. Mais uma vez ingressar no serviço público se apresenta como a melhor opção para uma parcela bem instruída da população, exatamente como foi nos anos 80.
2. O setor privado esta pagando mal, não provendo segurança e apresentando pouca ou nenhuma possibilidade de crescimento no emprego. Além disso os diferenciais na hora da contratação/promoção já não são tão diferenciais assim (MBAs, PÓS, línguas e afins).
3. Uma grande parcela da população está perdendo a fé em si mesmo, em sua capacidade, em sua carreira, cansados de lutar contra os departamentos de RH retrógrados e empresas que ainda não aprenderam que seu maior capital será, quase sempre, o humano.
Um triste ciclo que vem se repetindo entre o público e o privado.
Aqueles que não se enquadram e aqueles que preferem não se enquadrar
Algumas pessoas preferem não se enquadrar no perfil de quem acredita que o melhor lugar seria o funcionalismo público. Muitas vezes descontentes com seus empregos, sufocam qualquer sonho de crescimento lembrando sempre a si mesmo que é melhor estar ali que estar desempregado. Não acreditam ser capazes de passar num concurso, muitas vezes não acreditam na própria capacidade de crescimento, preferindo estar estagnados e seguros. Bom, seguros até serem sumariamente substituídos.
Entre os que não se enquadram vejo aqueles que realmente gostam do que fazem, confiam em si mesmo acima de qualquer coisa (e as vezes em seus empregadores) e crêem que vão realmente conquistar seus sonhos seguindo na profissão que escolheram e atuam. É claro que estes já estão empregados, já estão em atividade. A questão é o outro perfil…
O empreendedorismo desesperado
Existem uma clara diferença entre ser dono de um negócio e saber administrar um negócio. Se você não identifica essa diferença você nem pode ser considerado um empreendedor desesperado. Você é um empreendedor ignorante mesmo. Antes de começar uma empresa uma pessoa, por mais inteligente que seja, precisa se preparar para isso (existem diversos cursos que ajudam como os do Sebrae), entender o que significa ser dono de um negócio e, acima de tudo, descobrir se tem capacidade para administrá-lo.
Cansei de ver pessoas que tiveram uma "sacada" e largaram seus empregos para abrir aquele negócio que "não podia dar errado". Infelizmente, como o próprio Sebrae confirma, a maioria fecha as portas ainda no primeiro ano. Administrar um negócio é muito mais que apenas investir dinheiro e ter uma ideia genial. trata-se de saber demitir e punir, de liderar e incentivar,de entender de impostos, de compreender a concorrência, de estar a frente, de saber onde, como e quando investir. Ser dono de seu próprio negócio é não ter férias, não ter 13º salário (mas ter que pagar), ter que encarar funcionários entrando na justiça do trabalho e mentindo horrores pra levar seu suado dinheirinho, é pagar um rio de dinheiro para o Governo. É nunca se desligar do trabalho, é ter hora pra chegar e não ter hora pra sair, é brigar com fornecedores e abrir a perna para clientes. E ter de tratar com educação quem lhe deve e lembrar de pessoas que você não suporta, tratando-as sempre com atenção e respeito.
Certo, Eden, entendemos que administrar um negócio não é para todos mas o que exatamente você chama de empreendedorismo desesperado? É, gente, o problema é que nem todo mundo abre sua empresa por sonho. Muitos abrem por necessidade.
O mercado publicitário de Recife, um grande exemplo de desespero
Alguns de você vão rir com as informações que vou publicar a seguir, as vezes eu rio para não chorar. Recife tinha, em 2004, mais de 250 agências de propaganda cadastradas na Rede Globo Nordeste (entre agências e agenciadores. Os dados atuais são desencontrados por isso resolvi utilizar uma mais antigo). O número de grandes contas de propaganda (nenhuma de abrangência Nacional) gira, atualmente, em torno de 15 (a maioria públicas), devemos ter ainda cerca de 20 ou 25 clientes que consideraríamos aqui de médio porte (no Sudeste seriam considerados de pequeno porte). Como é que 40 contas sustentam essa infinidade de agências? Não sustenta.
Quando entrei na faculdade um estudante que quisesse aprender publicidade tinha apenas uma opção: Universidade Federal de Pernambuco, com apenas uma entrada por ano para 40 alunos. Destes 40 apenas 20 ou 25 chegavam ao fim do curso. Enfim, o mercado recebia um aporte de 25 novos profissionais por ano. Hoje em Recife se formam mais de 600 publicitários por ano!
O excesso de mão-de-obra e o mercado engessado ocasiona na redução ABSURDA dos salários pagos (pouquíssimas agências pagam razoavelmente bem aqui) e uma total insegurança quanto a sua vaga (para quê lhe pagar mais se posso substitui-lo por mais dois que ganhem metade que você?) ou seu crescimento na agência (não vou promover ninguém a diretor, vou trazer Zé Ruela da Silva que ao menos vai agregar valor a empresa com o nome dele, mesmo ele sendo um bunda suja lá em São Paulo).
O que fazer? Empreender, pensam alguns. Hoje abrir uma agência de propaganda demanda muito menos custo do que a 10 anos atrás. 4 ou 5 amigos de faculdade se juntam e, sem experiência de mercado ou administrativa, abrem sua "incrível" e "inovadora" agência que é completamente igual a todas as outras nos defeitos e não possui dinheiro para ter as qualidades. Se pensarmos bem os 4 ou 5 sócios da agência nova e criativa vão suar as bicas para tirar por mês o mesmo que tirariam nos seus estágios. Mas aí é que vem o "ao menos estou trabalhando em algo meu!". Pena que isso nem sempre funcione.
Então desisto de meu sonho?
Citei um mercado que conheço mas isso acontece em qualquer área, muitas vezes o profissional prefere trabalhar em casa, fazendo freela e termina ganhando a mesma coisa que ganhava no emprego. A ausência de benefícios ele compensa com qualidade de vida.
Abrir um negócio por abrir, sem o conhecimento necessário, sem a capacidade de gestão necessária, é, sem dúvida, um tiro no pé. Alguns tem sorte, e suam demais a camisa, e conseguem aprender as duras penas e com isso crescer. Contudo observem que os tempos mudaram e que a cada dia que passa isso está mais difícil. Se antes sua nova empresa concorria com aquelas a sua volta, em seu bairro ou comunidade, hoje ela concorre com empresas do mundo todo (comprar algo na China pode ser mais barato que aqui mesmo com o frete!). Se antes aquela informação que fazia seu produto diferente, especial, era segredo de estado hoje ela pode estar na internet, ao alcance de um clique.
Há solução?
Sim, há, claro. Sempre há. Abaixo eu relaciono algumas dicas que considero essencial para que um empreendedor desesperado se torne um empreendedor com uma chance de sucesso.
1. Pesquise e estude o mercado que vai atuar.
Toda informação é útil, toda informação é necessária. Saiba tudo sobre seu produto, seu cliente, seus concorrentes e, principalmente, sobre sua empresa. Não se limite ao hoje, procure analisar o futuro a curto, médio e longo prazo.
2. Faça um Business Plan mesmo que não vá captar recurso.
O Plano de Negócios é muito mais que uma ferramenta para captação de recursos, ele apresenta o DNA de sua empresa. Um bom plano de negócios pode funcionar para lhe fazer entender mais sobre seu negócio, sobre seu mercado, sobre suas oportunidades e desafios. O Sebrae de sua cidade pode lhe ajudar nisso.
3. Pense 10 anos no futuro.
Não monte um negócio pensando no agora. Pense no futuro, tente enxergar aquilo que outros não vêem, planeje como reagirá as mudanças mais óbvias e tente abstrair aquelas que podem ou não ocorrer, vendo aí novas oportunidades ou mesmo criando planos de contingência. A maioria dos empresários não sabe o que fará daqui a 3 anos.
4. Invista em capacitação.
Capacitação é cara, todos sabemos, contudo existem diversos cursos mais baratos (Sebrae, Senac e afins) que podem ser muito útil para a melhoria de seu capital humano. Faça todos os cursos que puder, conhecimento nunca é demais. Dê condições para que sua equipe estude, melhore, evolua.
5. Não faça mais do mesmo.
Se for copiar faça como os japoneses, faça melhor. O ideal é investir em algum diferencial que você percebeu ser necessário quando pesquisava sobre o mercado em que deseja atuar. Vai abrir uma agência de Propaganda? Que tal investir em novas mídias? Lava-jato? Que tal se preocupar com o consumo de água e apresentar funcionários cordiais e atenciosos? Mercadinho? Já percebeu que o Brasil começa a importar a ideia de pequenos mercados próximo ao consumidor?
6. Conheça a si mesmo.
Saiba quais são suas qualidade e deficiências. Se é estorvado com dinheiro passe longe da gestão financeira. Se não é organizado contrate alguém que seja. Se não sabe cobrar não cobre, tenha quem cobre por você. Utilize seu tempo para fazer bem o que sabe. Se é ter ideias então faça isso. Se é produzir vá para a linha de produção. Você pode contratar um gestor, ou uma consultoria, para equilibrar suas deficiências. Mas, Eden, é caro! Nem tanto. Algumas faculdades dispõe de empresas Jr que podem lhe ajudar muito por um custo camarada.
7. Conheça seu sócio.
Sociedade é como um casamento só que os problemas não podem ser resolvidos na cama. Só entre em sociedade se conhecer seu sócio, se souber que vocês se completam, quem tem objetivos similares, que tem uma dinâmica parecida. Caso contrário estará assinando um atestado de óbito de sua grande ideia.
8. Invista em propaganda.
Propaganda não significa TV, propaganda não significa rádio. Propaganda é comunicação e existem várias formas de se comunicar sem investir rios de dinheiro. Procure uma agência ou profissional competente. Procure ver as suas campanhas anteriores, consulte seus clientes pedindo referências. Existem muitas pequenas agências que possuem uma visão diferente, ousada e pessoal eficiente, disposto a comprar a briga com você e lhe acompanhar durante seu crescimento. Escolha com cautela pois não há nada pior que trauma com propaganda. E, uma vez escolhida a agência, confie nela, oriente sem se intrometer. Eles são profissionais, você é enxerido. O mesmo vale para seu site e afins. O primo de seu primo NUNCA é a melhor opção para cuidar disso. Lembre, sua comunicação vai vender sua imagem.
9. Invista em atendimento.
Um das maiores deficiência que conheço nos negócios aqui no Brasil é justamente a má qualidade do atendimento. Do vendedor canastrão e mal informado ao follow up robótico. Nos tempos de hoje, de twitter, blogs e redes sociais, a propaganda boca-a-boca é a mais barata e eficiente. Para o bem ou para o mal. Um cliente bem atendido, satisfeito pode lhe trazer diversas indicações valiosas e lucrativas, assim como pode lhe indicar defeitos no seu processo e produto com o real objetivo de lhe ajudar. Busque entender seu cliente, compreender seus anseios, superar suas expectativas, lhe proporcionar não apenas uma venda mais uma fantástica experiência de compra.
10. Capriche no acabamento.
Parte de minha família atua na perfuração de poços. Lembro de um vendedor que me dizia, quando trabalhei lá, que a melhor coisa do mundo era vender poço. Você vendia o desejo por água e entregava um buraco no chão, sem que o cliente pudesse ver, entender ou pentelhar em nenhuma outra parte do processo. Antes um buraco no chão, hoje um sistema de alta performance de proteção, acabamento de primeira, manual de uso do poço, pós-venda ativo. Seu cliente pode não entender o que é o seu produto, compreender como ele é produzido, conhecer as nuances do serviço que você presta, mas ele também vai lhe julgar por aquilo que vê, que pode analisar. Acabou? dê um brinde, converse, explique, oriente. Produziu? Garanta que está perfeito, que está bonito, que está funcional. Você sempre pode fazer mais e melhor.
11. Invista em tecnologia e pesquisa.
Procure saber sempre das novidades de sua área e, quando necessário, se aperte e adquira, ou aprenda, aquele equipamento, ou técnica, necessária para se manter competitivo. Muitas vezes, pela simples observação aliada ao desejo de melhorar, novas técnicas e equipamentos são criadas dentro da própria empresa.
12. Incentive a criatividade.
Incentive seus funcionários a criar, a ter novas ideias e apresentá-las. Reconheça as boas ideias e os premie. Nunca subestime que está na linha de frente.
É claro que isso não é uma fórmula para fazer dar certo mas são dicas para que as possibilidades de fracasso sejam substancialmente reduzidas. Se realmente resolver se tornar um empreendedor que o faça com consciência, tomando todos os cuidados necessários para que seu negócios se torne o sucesso que você sempre sonhou.
Qualquer dúvida fiquem a vontade para escrever ou deixar comentários.

(10 Opinaram, Média: 4,50 de 5)















Oi Eden,
Achei o artigo perfeito, não sabia que você também estava em Recife!
O 6º ponto das soluções, me chamou muito a atenção, acho que conhecer suas próprias deficiências é o mais importante (ainda mais que conhecer suas qualidades) antes de começar qualquer empreendimento. E conhecendo-me, não posso deixar de lhe perguntar: O quê a gente faz quando sua deficiência é, particularmente, a falta de “social skills” (traduzindo “puxação de saco”)?
Afinal, no Brasil, a nova mídia não passa de uma grande panelinha entre os autodenominados “pro-bloggers” que, seja por terem milhares de seguidores no Twitter ou receberem trilhões de visitas nos seus blogs banais, se acham a elite e donos da blogosfera…
Para piorar as coisas, certos portais que deveriam ser (ou que a gente esperaria que fossem) éticos e profissionais estão em mãos desses blogueiros que, responsáveis pela indicação de conteúdo, acabam se beneficiando uns aos outros e deixando excelentes blogs do lado de fora.
Me incomoda muito, ver como alguns donos destes excelentes blogs ficam calados e se submetem a este tipo de arrogância. Não faço, nem me interessa fazer parte de nenhuma seita de blogueiros, o que sim me interessa é a integridade da blogosfera, coisa que no Brasil ainda é duvidosa.
Fugi um pouco do assunto, mas acho que o comentário poderia se enquadrar em: “Como empreender num mercado monopolizado?” hahaha
Um Abraço,
Zé
RESPONDENDO:
Existe panelinha? Sim. Existe PANELINHA? Não. Confuso? Explico: é mais que natural que os nominados “grandes blogueiros” decidam defender seu território. Opa?! SEU?!!??!! Calma lá. É muito fácil compreender quando percebemos que os caras estão na lida a bastante tempo, já ralaram muito o bucho e mostraram a bunda para estar entre os “grandes”. É claro que eles não acham justo um Zé Ruela qualquer – desculpe pelo Zé – chegar cortando caminhos e pegando atalhos.
É certo? Bom, de certa forma eu concordo com eles. Entenda, eu cheguei a blogsfera há cerca de um ano. Fui muito bem recebido por boa parte dos considerados grandes. Fui bem tratado, incentivado e apoiado. Digo a você que isso não aconteceu por eu ser sociavel – e muito menos bonito. Aconteceu porque fui humilde, quis aprender, pedi dicas, prestei atenção e, mais que tudo isso, fiz um trabalho simples porém limpinho.
Quando você trabalha bem não precisa ficar mendigando atenção… ela vai aparecer fruto de seu trabalho. O problema é que esse fruto não amadurece em 2 meses como querem alguns, mas as vezes demoram anos. A questão é: se você não consegue acreditar no seu trabalho o suficiente para achar que vale a pena investir 12 meses sem reconhecimento porque a panelinha deveria?
Eu admiro o trabalho de alguns blogueiros que muita gente odeia, como Cardoso. O cara consegue ser chato? CLARO, é o Cardoso. Mas isso não diminui a qualidade do trabalho dele ou a importância para a blogsfera. Nunca pedi parceria, nunca chorei um RT, nunca chamei ele de gostosão mas ainda assim ele descobriu o blog e, gostando do que viu, elogiou o que viu e me conseguiu um BOM destaque. Também teve outro blogueiro famoso que gostou do blog e apoiou meu trabalho – mesmo eu não gostando do blog dele agradeci o reconhecimento mas não chorei por nenhum tipo de benefício. Devagarinha blogueiros como Caio, do Brogui, Esther do Saber é Bom de Mais, George, do Gordo Nerd e vários outros foram elogiando posts, linkando e devagarinho o Passinho foi ganhando um pouco de destaque.
E quando digo pouco é pouco MESMO. Ainda tem dias que não passamos dos 700 visitantes – uma mixaria em números – mas poucos provenientes do google, todos de excelente qualidade. Isso que importa.
Enfim, esqueça esse negócio de panelinha. Faça seu trabalho como acredita que deve ser feito, sério, comprometido. Indique posts bons para os grandes – em tempos de Twitter funciona bem melhor que implorar parcerias. Bem, é isso, espero que tenha lhe dado uma luz.